Oito anos ou mais elas ficaram guardadas. Eram sementes de amaranto que deixei num canto d dispensa, e vez por outra eu pensava – nossa isso tá tão velho, será que ainda brota ou é melhor eu jogar fora. Fato é que, na dúvida, fui guardando. Um dia, amanheci disposta a jogar fora aquelas sementinhas e na hora me veio uma ideia. Já que eu ia jogar fora mesmo, por que não jogá-las simplesmente sobre a terra da jardineira perto da cozinha onde planto especiarias? Não tive nenhuma intenção de semeá-las, apenas as derrubei sobre a terra. E não é que, dai 3 dias as danadinhas começaram a brotar feito loucas! Mal sabia eu que era da sua natureza aguardar o tempo que for para fazer história. Eram tantas mudinhas, eu pirei! E elas cresceram muito, estão lindas e estou agora na espera por suas flores e sementes. Mas o que é afinal esse amaranto sobreviveu tanto tempo?
Eu fiquei pasma quando fui pesquisar o amaranto. Frequentemente ela é cunhada como “a plant que nunca morre,” e carrega consigo uma história rica que atravessa os milénios. Originário das regiões montanhosas da América Latina, especialmente do México e da região andina, o amaranto é uma planta com impressionante capacidade de sobreviver em condições adversas. Ele tem uma enorme relevância para a saúde humana, representando tanto a força da natureza quanto a sabedoria das culturas que o cultivaram.
A história do amaranto remonta a mais de 8.000 anos, sendo uma das principais culturas alimentares das civilizações asteca, maia e inca. Para os astecas, em particular, ele não era apenas uma fonte de sustento, mas também um elemento central de rituais religiosos.
Com a chegada dos colonizadores europeus, o cultivo do amaranto foi duramente reprimido, pois as autoridades religiosas e políticas viam nos rituais associados a ele uma ameaça ao cristianismo e ao controle colonial. Apesar disso, o amaranto nunca desapareceu. Sua resiliência permitiu que ele continuasse a crescer de forma selvagem ou em regiões isoladas, esperando o momento para ressurgir como um alimento global e um símbolo de resistência cultural.
Eu fui me informar sobre o que o amaranto tem que o faz imortal. E é simplesmente genial! Ele utiliza a fotossíntese do tipo C4, uma forma mais eficiente de captar dióxido de carbono, especialmente e climas quentes e secos, o que lhe dá a capacidade de realizar a fotossíntese mesmo sob intensa radiação solar e baixa disponibilidade de água. Alem disso, o amaranto pertence a um grupo de plantas altamente diversificado, com grande variabilidade genética. Essa diversidade genétic aumenta sua capacidade de adaptação a diferentes climas, altitudes e tipos de solo, tornando-o uma espécie praticamente indomável. E se isso não bastasse, algumas espécies de amaranto produzem compostos naturais que repelem pragas e inibem o crescimento de microrganismos prejudiciais. Isso reduz a dependência de pesticidas e aumenta sua sobrevivência em condições naturais.
Mesmo quando a planta sofre danos, ela consegue regenerar suas folhas e flores rapidamente garantindo sua sobrevivência e produtividade. E isso eu pude comprovar na minha plantação. No dia em que as sementes começaram a brotar loucamente, caiu uma chuva torrencial que alagou a jardineira, e as mudinhas sumiram no barro. Elas ficaram ali submersas e aparentemente quebrada por dois dias. A chuva não parava. Quando veio a estiagem, eu simplesmente espremi o barro para tirar o excesso de agua, recoloquei mais ou menos no lugar, e, adivinhem, em menos de algumas horas as mudas estavam começando a erguer suas pontinhas em direção ao céu. Pensa numa coisinha linda!
A capacidade do amaranto de prosperar onde outras plantas falham o faz muito especial. Pertencente ao gênero Amaranthus, ele é incrivelmente adaptável a diversos climas e tipos de solo. Pode crescer em regiões áridas, suportar altas temperaturas e ainda oferecer uma colheita abundante.
Uma das características mais notáveis do amaranto é sua capacidade de produzir uma enorme quantidade de sementes, chegando a até 60.000 por planta. Essas sementes são incrivelmente resilientes, podendo permanecer viáveis no solo por muitos anos. Mesmo após um período de dormência, elas podem germinar e dar origem a novas plantas, simbolizando a ideia de renascimento e imortalidade.
Do ponto de vista nutricional, o amaranto é um verdadeiro tesouro. Ele é classificado como u pseudocereal, assim como a quinoa, e é conhecido por seu perfil proteico excepcional. Contém todos os aminoácidos essenciais, incluindo a lisina, que é escassa em muitos cereais. Além disso, é naturalmente sem glúten, tornando-se uma opção valiosa para pessoas com doença celíaca ou sensibilidade ao glúten. O amaranto também possui folhas comestíveis e nutritivas, o que o torna uma planta incrivelmente versátil. Enquanto suas sementes são valorizadas por seu alto teor de proteínas e minerais, suas folhas são ricas em vitaminas e antioxidantes, reforçando seu papel como um alimento completo.
Eu sei que a maioria já sabe o que é um superalimento, mas nunca é pouco ressaltar que os estudos sobre o amaranto o apontam como coadjuvante na redução dos níveis de colesterol, estabilização da glicemia e promoção da saúde cardiovascular. Sua abundância em fibras auxilia no funcionament intestinal, enquanto seus antioxidantes combatem os radicais livres, reduzindo o risco de doenças crônicas.
Sua capacidade de crescer em solos pobres e de exigir poucos recursos hídricos o torna ideal para regiões afetadas pelas mudanças climáticas e pela degradação ambiental. Além disso, sua alta produtividade por hectare oferece uma alternativa sustentável para combater a fome e a desnutrição em larga escala.
Ao longo dos séculos, o amaranto foi integrado em uma variedade de pratos e práticas culinárias. No México, ele é usado para fazer o tradicional doce chamado alegria, que combina sementes de amaranto com mel ou melaço. Suas folhas jovens são preparadas como vegetais em sopas e guisados. Hoje, o amaranto é incorporado em uma ampla gama de produtos alimentícios, como pães, biscoitos, barras de cereal e massas. Ele também é valorizado em dietas focadas na saúde, como o veganismo e o vegetarianismo, por sua capacidade de fornecer nutrientes essenciais em uma forma natural e sustentável.
O amaranto é uma testemunha viva da história humana e da resiliência da natureza. Ele nos ensina lições valiosas sobre a importância da diversidade, da adaptação e da valorização do conhecimento tradicional, especialmente enquanto o mundo enfrenta desafios globais como a fome, as mudança climáticas e a perda de biodiversidade.
O amaranto não é apenas uma planta resistente e nutritiva. Estamos falando de uma planta que nunca morre! O renascimento do amaranto como um alimento popular também pode ser visto como um ato de resistência cultural. Ele resgata a sabedoria ancestral e celebra a diversidade alimentar em um mundo frequentemente dominado por monoculturas e sistemas alimentares industrializados. Cada colheita de amaranto é, de certa forma, um lembrete da profunda conexão entre humanidade e natureza.